
Ou: Como ter um verbete jogado no lixo
Passei um bom tempo de minha vida editando na versão em português da Wikipedia. Cheguei, a contragosto, a ser "administrador" lá e, também a contragosto, deixei de sê-lo.
Muita gente "mora" na Wikipédia lusófona; alguns têm lá suas brigas, seus desentendimentos, que se arrastam por meses, anos até, sem que haja qualquer solução; porque na qualidade de internautas, gozam da memória extra do computador para não esquecerem jamais (e, consequentemente, nunca perdoarem); há, também, no caso da Wikipédia, uma memória extra - já que todas as edições feitas ficam indeléveis nos históricos de cada página: esse o combustível. Os usuários que não perdoam, são o comburente...
Meu "compromisso" em editar ali era o chamado "domínio principal" - os verbetes propriamente ditos, seu conteúdo. Milhares de edições, consertos, uma luta por levar informações nem sempre fáceis de obter. Uma chance única, por exemplo, de poder falar de figuras que dizem respeito à história da minha cidade, do Estado da Bahia e, enfim, do mundo todo.
Partindo da aldeia pequenina, para a aldeia global.
Tive, até, a felicidade de, no passado, comprovar na prática a importância desse trabalho, quando via alunos do nível secundário e até da universidade, tomando por base coisas que eu havia escrito ou ajudado a escrever, um dia...
Mas, como já falei, as disputas surgidas nunca são abandonadas. Não quero dizer que não as tenha provocado, com o jeito ríspido de "falar" - mas nunca entendi o motivo de alguns usuários simplesmente se antipatizarem perpetuamente...
Saí do projeto, depois de mudar meu "nome" - tinha usado o nome verdadeiro e acabei sendo xingado por irresponsáveis anônimos (claro, escondidos por "nomes" criados para o registro ali).
Como recentemente disseram, volto como "turista". Mas mesmo como turista é difícil continuar... E, infelizmente, como eu dezenas de outros usuários mais assíduos foram embora, quer permanentemente, quer com voltas esporádicas.
Fiz grande amizades na Wikipédia. Um cearense, morador de Londres, por exemplo, chamado "MHV"... Depois, ele saiu do projeto e, numa das voltas últimas, veio para brigar comigo... É estranho isso, pois até agora não vejo o que fiz a ele pra que isso se desse assim. Mas tenho ainda enorme carinho por ele, e todos com quem pude travar esse estranho relacionamento amistoso que a internet nos proporciona...
Há uma página na qual podemos observar o que vem ocorrendo; chamada de "mudanças recentes", retrata tudo o que ultimamente vem se passando. Ali vi, há pouco, que um anônimo havia escrito algo indevido num verbete intitulado "Justiça Especial". Ao ler o conteúdo, porém, vi que o conceito dado era totalmente diverso daquele que o Direito brasileiro determina; apaguei e reescrevi. Mas sei que, daqui a algum tempo, o verbete estará todo "manchado" - cheio de marcações e vandalismos não revertidos.
Porque, com a diminuição dos que efetivamente colaboravam contra os vândalos de conteúdo, as reversões de erros acabam ocultando erros mais antigos, até termos coisas como o Farsa de Inês Pereira, que registra:
Entretanto entram em peça dois “cimenteieros judeus” que também cuidavam de arranjar cimento para +3, e se bem procuraram melhor acharam e Inês se casa com um escudo, de sua graça Bras da Mata
Trazendo frases que um dia foram:
Inês Pereira, moça simples e casadoira mas com grande ambição procura marido que seja astuto, sedutor, “que saiba tanger viola, e eu coma cebola.”
mas que, quando escrevo, estão:
Inês, moça simples e casadoura mas com grande ambição procura marido paniscao que seja astuto, sedutor, “que saiba tanger viola, e eu coma coco.”
Comer coco ou cebola não têm tanta diferença - especialmente para a qualidade dos que preferem brigar entre si do que ver o que se vai no domínio principal (verbetes).
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Hoje não vejo mais, como antes, as pessoas a consultar a Wikipédia... A começar por minha filha, que ali se servia e agora, simplesmente, torce o nariz quando lhe falo desse projeto...
É que as pessoas não ficam comendo coco, quando compram cebolas. Acho...
Ao propor como destaque o verbete Agricultura no Brasil, acabei ouvindo coisas como "nenhum agrônomo, por exemplo, leria esse artigo e votaria a favor". Nem respondi mais, talvez em consideração ao meu cunhado, ex-diretor da EBDA, e que me deu oportunidade de ilustrar o verbete com várias de suas plantações, autoridade que é em fruticultura, algodão e tantas cositas más...
A verdade na wiki é assim: um sujeito qualquer vai lá, diz que um agrônomo não iria gostar de algo - e o que ele falou é incontestável. Pensei até em convidar o cunhado pra rir comigo do tal comentário, mas ele é muito ocupado pra isso...
Fica-me o consolo, entretanto, de saber que a Wikipédia poderia ter sido uma experiência única de democratizar o conhecimento; foi o que fiz e não me arrependo.
Mas fica, também, a constatação de que num espaço de birras e mediocridades, o resultado final é que estaremos comendo coco no lugar de cebola...