
Anos atrás ouvi de um ex-comunista (e hoje até os comunistas são ex) que o Brasil deveria privatizar as universidades. Para mim, fruto do ensino público e gratuito toda a minha vida, aquilo soou como heresia. Não por mim, mas justamente porque quem o dizia havia não somente estudado todos os três graus pelo ensino público: mas porque justamente ele se beneficiara do dinheiro público até para morar na capital, enquanto se preparava para entrar na faculdade e durante todo o tempo em que lá ficou, numa residência estudantil mantida pela prefeitura...
Na época, meu único argumento foi perguntar-lhe:
O Brasil lhe deve muito, não? Pois você usufruiu da gratuidade toda a vida e agora, quer fechar as portas aos que não lá chegaram.
O escritor Luis Fernando Verissimo, que quando fala sério fala como poucos, nos dá uma demonstração sucinta de como vemos a reação da sociedade "não-racista" brasileira contra a instalação do sistema de cotas nas universidades...
Diz ele, comparando Brasil e EUA: "A diferença entre um país e outro é essa. Lá o racismo é uma questão nacional. Aqui uma ficção de integração dilui a questão racial. E se a questão não existe, se ninguém é racista, por que nos preocuparmos com denominações corretas ou incorretas? Só quando a ficção é desafiada, como no caso das cotas universitárias, é que aparece o apartheid que não se reconhece."
Vivemos um apartheid brasilis, uma aberração que sempre (desde quando a escravidão vigia) tolerou uns dois ou três por cento de negros nos meios sociais mais abastados. Uma cifra que não se altera, mesmo no século XXI - e que o sistema de cotas insiste em querer alterar...
Gostamos, como na imagem acima de Rugendas, de olhar a massa de nossas janelas, partilhando a mesma visão: uns, morando nas mansões, os outros nas mansardas...
Testemunhei muitos casos de racismo ao longo de minha vida. Racismo verbal, claro, ou a "coisa" seria mesmo caso de polícia. Ser "branco" nos permite ser tomado por "cúmplice" de tais comentários. Mas um deles foi constrangedor: um comerciante me dizia barbaridades a cada contradição que lhe retrucava e, no calor de sua desfaçatez, um cliente, negro, entrou. Eram amigos, e o tal comerciante não o vira e continuou seu discurso. Não era pessoal, mas era ofensivo. O constrangimento foi tanto que eu já me preparava para dizer a verdade e nada mais que a verdade quando ambos, vendedor e comprador, finalmente vendo-se mutuamente, seguiram adiante como se absolutamente nada houvesse ocorrido...
Mais tarde, procurei o amigo que chegara e lhe perguntei o que achara daquilo que havia escutado. Não sei o que esperava como resposta, mas a que obtive foi um "deixa pra lá", "já estou acostumado" e "fulano é assim"...
Não sei por quem ele me tomara - se por um cúmplice, mais um dos autores do apartheid brasilis - aquele que "não se reconhece" - mas o fato é que tudo continuava como dantes. É melhor ir deixando pra lá, fazendo de conta que somos mesmo todos iguais, que o Brasil pratica a mais perfeita interação social e... ainda tem coragem de falar contra a mais que urgente reparação...